TDAH em meninas e mulheres

Texto: Dra. Katia Beatriz Corrêa e Silva, Psiquiatra

A maior parte do que se escreveu e pesquisou sobre TDAH  estava tradicionalmente dirigido aos homens, já que se acreditava que eles eram 80 % dos portadores.

Entretanto, há algum tempo, pesquisadores tem chamado atenção para as diferenças entre homens e mulheres na expressão do transtorno. Alguns autores, como K. Nadeau e P. Quinn, vem se dedicando desde 1996, ao estudo específico do TDAH em meninas e mulheres.

Atualmente mais mulheres estão sendo diagnosticadas, com a melhor identificação do tipo predominantemente desatento ( SEM hiperatividade ). Meninas e mulheres com TDAH lutam com uma variedade de problemas que são diferentes daqueles que os homens enfrentam. Este texto pretende lançar alguma luz sobre algumas dessas diferenças, e falar sobre alguns tipos de dificuldades enfrentadas pelas mulheres com TDAH.

No nosso meio nem todos os pais ouviram falar em TDAH. E também não devemos esquecer que a maioria deles, quando ouve esse termo ” TDAH ” lembra com frequencia de um menino pequeno e agitado.

Pode-se traçar um paralelo entre as formas tradicionais ( tipo misto, tipo predominantemente hiperativo-impulsivo e tipo predominantemente desatento ) e a maneira como os sintomas se expressam nas meninas e nas mulheres. Esse paralelo é bastante útil para compreender as variações sobre esses três tipos.

A maior parte dos meninos com TDAH é mais facilmente identificável, seja na sala de aula seja  no lazer, e com mais frequencia são levados para uma avaliação. A maior parte das escalas e questionários de avaliação enfatizam os aspectos da hiperatividade, da impulsividade e do comportamento desafiador. E apenas as poucas meninas que são parecidas com esses meninos é que são levadas a alguma avaliação. Com isso continuamos com aquela taxa enganosa de 4 : 1.

O que se percebe agora é que muitas meninas não foram diagnosticadas porque seus sintomas se mostram diferentes. Uma grande diferença é que as meninas são menos rebeldes, menos desafiadoras, em geral menos  ” difíceis ” que os meninos. Mas ” ser menos difícil ” em vez de ajudar, só dificultou o reconhecimento do problema. Quando meninos causam frequentes  problemas com a disciplina, em casa ou na escola, rapidamente se procura uma orientação. As meninas por serem mais cordatas dificilmente são identificadas, e vão passando ano após ano na escola sem usar todo o seu potencial.

Mas as meninas com TDAH não são todas iguais. Quando seu comportamento é parecido com o TDAH em meninos o reconhecimento é mais fácil. Mas mesmo as que são do tipo Misto ou do tipo Predominantemente Hiperativo-Impulsivo, nem sempre são tão parecidas com os meninos. E é aí que elas ficam sem diagnóstico.

Mas mesmo as meninas e mulheres que apresentam sintomas de Hiperatividade e Impulsividade mais marcantes, os expressam de forma diferente da dos meninos. São frequentemente menos rebeldes, menos opositivas, e a Hiperatividade se expressa  mais através da fala e menos da ação. Como a comorbidade com os Transtornos de Ansiedade e Depressão são os mais frequentes, costumam ter uma instabilidade emocional importante, com frequentes mudanças de humor.

As meninas com o tipo Predominantemente Desatento se mostram sonhadoras e tímidas.  Se esforçam  para não chamar a atenção sobre si mesmas. Aparentam estar ouvindo  enquanto suas mentes divagam. Podem  parecer ansiosas em relação a escola, esquecidas e desorganizadas com o dever de casa e ficam preocupadas com as datas de entrega de trabalhos. Costumam ter um ritmo lento e a sensação de sobrecarga. Algumas  são ansiosas ou depressivas e vistas erradamente como menos inteligentes do que realmente são.

No tipo Misto apesar de terem um nível de atividade muito mais alto que as desatentas, elas não são necessariamente hiperativas. A agitação se mostra através da fala mais intensa.

O discurso pode ser confuso pela dificuldade em organizar seus pensamentos  tentam disfarçar a desorganização e o esquecimento. Na adolescência podem tentar compensar a pobre performance acadêmica com atitudes muito populares e se expondo a riscos com fumar, beber e iniciar vida sexual ativa, precocemente.

Quanto mais inteligente, mais tarde os problemas acadêmicos tendem a aparecer. Muitas meninas com QI acima da média podem progredir até chegar ao nível secundário , ou mesmo à faculdade. À medida que a vida escolar se torna mais exigente e complicada nos níveis superiores, seus problemas com a concentração, organização e conclusão tem maior probabilidade de aparecerem. As disfunções executivas ficam mais visíveis a medida que as demandas sociais progridem.